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RESENHA: A travessia de um aprendiz da alma
Aprendiz de Poeta, de André Flores assume a nobre incumbência de perscrutar afetos, revisitar reminiscências e traduzir os silêncios da alma.
Ao longo da obra, percebe-se uma voz autoral que transita entre a candura memorialista, a reflexão existencial e a celebração das pequenas epifanias cotidianas. A infância, por exemplo, emerge não apenas como recordação, mas como símbolo de pureza perdida. Tal dimensão se evidencia de maneira contundente no poema “Alma de Criança”, quando o autor sentencia: “Pois quem não se permite sonhar / Matou a criança que havia dentro de si.” Trata-se de um verso de vigor expressivo singular, capaz de sintetizar a tragédia íntima de uma vida destituída de imaginação e esperança.
Não menos eloquente é a recorrente exaltação da simplicidade como locus privilegiado da felicidade. Em “A mais pura verdade”, o autor escreve: “Na simplicidade das coisas / Estão os momentos mais lindos / De amor, de paz e de muita felicidade.”
Há também momentos de elevada introspecção, nos quais o poeta reconhece a condição imperfeita e contraditória do ser humano. Em “Reflexos d’alma”, lê-se: “Cometo erros, acertos, choro, dou risada / Não há nada, a não ser me deixar experimentar a vida.”
A linguagem de André Flores privilegia a clareza sem renunciar à emoção. Seus versos não pretendem o hermetismo, mas a comunhão; não buscam o ornamento vazio, mas a reverberação afetiva. Em diversos momentos, o autor reafirma a potência transformadora do gesto singelo e da sensibilidade partilhada.
Aprendiz de Poeta transcende a configuração de mera coletânea lírica para afirmar-se como testemunho humano e exercício de sensibilidade, demonstrando que a poesia pode brotar da memória, do amor, da dor e da contemplação das minudências diárias. [Cláudia Brino]
